Como fazer filosofia após a superação da metafísica?
Por Adeir Ferreira – Filosofia e Existência -II
Longe
da aplicabilidade dos postulados filosóficos de Nietzsche e Heidegger, cito um
fato ocorrido entre eu e um aluno meu do 2º ano do ensino médio no ano letivo
de 2013. Ele me procurou no intervalo e me disse: “professor, estou com uma
dúvida muito grande entre estudar filosofia ou medicina. O senhor pode dizer-me
como é a carreira de filósofo em termos de remuneração e as áreas de atuação?”
Ao que eu respondi – sinto que suas
preocupações acerca da realização pessoal secundariza o objetivo primário de
qualquer profissão, pois a medicina, a filosofia, a administração ou o direito
já possui um objetivo em si mesmo, de tal modo que, independentemente da área
que você opte, já está dado o ofício a desempenhar.
Heidegger,
ao citar a transcendência como uma forma de postura mediante o mundo (Essência
do Fundamento, p. 95) diz que a transcendência renova a subjetividade do
sujeito, dando-lhe condições de interpretar o mundo, dentro de sua ipseidade,
evitando extremismos que possam ofuscar o ser ou o sujeito.
A filosofia e também as demais
ciências parecem ter sido colocadas num patamar de personificação do existir do
sujeito no mundo, assim como na experiência que tive com o referido aluno.
Assim como o ser foi entificado, a filosofia, a medicina, e as ciências como um
todo, foram personificadas. Nesse sentido, Adorno e Horkheimer apontam a
Indústria Cultural como esse fermento que incha o ego ao ponto de ele se
colocar como prioridade na existência e em segundo plano a objetividade do
mundo que acaba se extremisando ao ponto de servir como fundamento não do ser,
mas do existir do sujeito: “para substituir as práticas localizadas do
curandeiro pela técnica industrial foi preciso, primeiro, que os pensamentos se
tornassem autônomos em face dos objetos, como ocorre no ego ajustado à
realidade” (Adorno e Horkheimer, p. 22-23).
Ou seja, o medo da perda do eu se
tornou real, conforme Adorno e Horkheimer, “o eu integralmente capturado pela
civilização se reduz a um elemento dessa inumanidade, à qual a civilização
desde o início procurou escapar” (ibd.p. 37). A saída concreta para a autoafirmação
de si é prioridade no mundo. A Indústria Cultural faz com que os meios de
libertação do homem se tornem suas próprias armadilhas, tais como ciências,
trabalho, técnica e cultura.
Para Heidegger o filósofo é
importante na busca do sentido do ser pelo fator do ato filosófico colocar a
questão e iniciar a investigação acerca do sentido do ser. No entanto, como
procurar o sentido do ser quando o ser do sujeito se confunde com ser-aí, com o
ser das coisas e com o próprio mundo? Com certeza se deve aos extremismos.
A resposta ainda não fora apontada,
mas haverá de elucidar uma alternativa quando colocarmos o elemento deflagrador
desse contexto em questão e não o abandonando como fazem os extremistas. De um
modo geral, o que está em xeque é a guinada do antropocentrismo em detrimento
do teocentrismo. O homem atribui para si uma dupla responsabilidade, a de dar
sentido a si próprio e ao mundo.
O verbo “dar” é postulado dado pela
Indústria Cultural, o sentido não está em um lugar onde se possa encontrá-lo,
ele é fabricado por outro sujeito igual a mim, no entanto, esse sentido também
não é um sentido original do ser, é apenas um significado simbólico das
relações econômicas, egóicas. Penso que, fazer filosofia nessas condições restringe a existencialidade a um caminho alternativo como o do Zaratustra nietzscheano.
Nesse sentido, se isolar para se encontrar, se apartar do mundo
para aí então classificar ente e ser como deve ser classificado e definido,
compreender o existir do sujeito com o mundo, no mundo e sem o mundo e não se
reduzindo a uma extremada posição que confunde o sentido do ser, não apenas com
o ente, mas também com o sujeito.
Referências Bibliográficas:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo:
Martins Fontes, 2003.
ADORNO, Thedor. e HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos
filosóficos. Tradução de Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
HEIDEGGER, Martin. A
essência do fundamento. Edição bilingue. Edições 70: Lisboa. (Biblioteca de
Filosofia Contemporânea):
_________________. Ser
e tempo. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. Vozes: Petrópolis,
2006.
MARTON, Scarlett. Extravagâncias: ensaios sobre a
filosofia de Nietzsche. Discurso Editorial e Unijaí: São Paulo, 2001.
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